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CENTRO OESTE,15/07/2026

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    Senhores dos Pincéis: Como os letristas ajudaram a escrever a alma de Anápolis

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    Senhores dos Pincéis: Como os letristas ajudaram a escrever a alma de Anápolis


    Muito antes dos computadores e das impressoras digitais, letristas transformaram fachadas em obras de arte e ajudaram a construir a identidade visual da cidade





    Antes que as fachadas fossem concebidas em computadores e reproduzidas por equipamentos capazes de imprimir milhares de cores em minutos, havia homens que escreviam a cidade à mão.





    Com pincéis, latas de tinta, barbantes, tesourões e coragem, eles desenharam o comércio, coloriram ruas e ajudaram a construir a identidade visual de Anápolis. Eram os letristas — profissionais que transformavam letras em arte, propaganda e expressão.





    Pouca gente conhecia seus nomes. Mas praticamente todos os anapolinos passaram diante de suas obras. A padaria. A farmácia. O açougue. O cinema. A loja. A promoção anunciada em letras garrafais na vitrine. Os outdoors nas avenidas. Tudo isso já carregou a assinatura silenciosa desses artistas.





    Ser letrista nunca foi apenas escrever. Era calcular distâncias, equilibrar proporções, misturar tintas e improvisar soluções. Antes dos logotipos padronizados, cada fachada carregava um pouco da personalidade de quem a pintava.





    Humor e Venda





    “Eu gostaria que essa profissão fosse lembrada como uma arte”, resume João Batista do Nascimento, o Batista. Vendedor de ofício, ingressou na atividade em 2012, após aprender os primeiros passos com Macalé, um dos pioneiros dos letreiros em Anápolis. Tornou-se especialista nos cartazes promocionais que transformavam liquidações em verdadeiros espetáculos visuais.





    Produzindo anúncios para grandes redes varejistas, guarda histórias que hoje conta entre risos. Numa delas, escreveu “Lavadora Bradesco”, quando o correto seria “Lavadora Brastemp”. Em outra, anunciou que “nossos preços neymaram”, sugerindo que os valores haviam caído. O erro virou motivo de comentários e ultrapassou os limites da cidade pelas redes sociais.





    Mas Batista revela algo maior: o letrista precisava entender o cliente, conversar, interpretar desejos e transformar uma simples orientação — “faz uma letra bonita” — em comunicação capaz de atrair olhares e impulsionar vendas.





    Os preços neymaram, sim! Garante o humorado Batista




    Traço Teimoso





    Léo Canuto, da Leo Artes, conhece bem esse caminho. Em 2007, incentivado pelo amigo Canhoto Letreiros, decidiu apostar nos pincéis. Faz questão de dizer que ninguém lhe ensinou exatamente o ofício. “O que houve foi incentivo. O restante foi determinação”, enfatiza.





    Autodidata, aperfeiçoou-se observando, errando e tentando novamente. Guarda o velho tesourão usado desde o início da carreira e os pincéis que o acompanham há anos.





    Leo Canuto: “É errando e persistindo que se aprende”




    Foi também o erro que o moldou. Ao distribuir mal as letras de uma das primeiras placas, precisou refazer tudo após a reprovação da cliente. A experiência lhe ensinou que a excelência nasce da humildade para reconhecer imperfeições. Hoje, impressiona pela capacidade de ampliar desenhos “no olho”, reproduzindo em paredes gigantes imagens vistas em pequenas telas de celular.





    Entre seus trabalhos está uma pintura em uma caixa d´agua no interior de um colégio, a mais de 10 metros de altura. Mais do que que logomarcas e informações, a obra tornou-se motivo de orgulho pessoal pelos desafios enfrentados.





    A mais de 10 metros do chão, Léo leva sua arte às alturas




    Herança Viva





    Se Batista representa a irreverência e Léo simboliza a persistência autodidata, Anderson Beckenbauer da Silva Frota encarna a herança afetiva do ofício. Sim, Beckenbauer. O nome homenageia o jogador alemão Franz Beckenbauer. E talvez exista certa poesia nisso: enquanto o craque desenhava jogadas nos gramados, o filho aprendeu a desenhar histórias nos muros da cidade.





    Anderson Beckenbauer: medo de altura e memórias impagáveis




    Filho de letrista, Anderson sempre gostou de desenhar. Aos 20 anos, saiu à procura de oportunidades. Ouviu inúmeros “nãos” até encontrar acolhimento no ateliê Pinturas Jayme, onde aprendeu com o mestre Jayme Pureza. Das dificuldades, lembra o calor, o esmalte sintético que grudava em tudo e a pressão por um trabalho impecável.





    Becken, como é conhecido, também coleciona histórias impagáveis. Certa vez, precisou pintar uma fachada praticamente de cabeça para baixo sobre um telhado. Em outra ocasião, desistiu de um serviço numa caixa-d’água gigante ao admitir que o medo de altura era maior do que a coragem. “Eu, medroso do jeito que sou, olhava para trás o tempo todo”, recorda, ao lembrar do dia em que trabalhou sozinho noite adentro num templo maçônico.









    Muito além da tinta: o trabalho do Becken transforma superfícies brutas em imagens de pura sensibilidade





    Resistência Humana





    A chegada da tecnologia parecia decretar o fim dos letristas. Impressoras digitais ganharam espaço. Computadores assumiram o protagonismo.





    Mas algo curioso aconteceu. O artesanal voltou a chamar atenção justamente porque se tornou raro. Há clientes que ainda preferem o traço humano. A pequena imperfeição que revela autenticidade. O desenho que não sai de uma máquina, mas das mãos de alguém. “Essa arte não pode morrer comigo”, diz Anderson. Batista concorda. Léo também.





    Nenhum deles se opõe ao progresso. Reconhecem os benefícios da tecnologia e convivem com ela diariamente. Mas defendem aquilo que as máquinas jamais conseguirão reproduzir completamente: o olhar humano.









    De um lado, a concessionária de cara nova. Do outro, a arte do Batista provando que preço baixo se escreve à mão e com muito humor





    Letras Eternas





    Talvez o maior legado desses homens não esteja apenas nas fachadas que resistiram ao tempo. Está na capacidade de transformar trabalho em arte e oferecer beleza ao cotidiano. Eles não vendiam apenas produtos. Ajudavam comerciantes a apresentar seus sonhos ao mundo.





    Anápolis cresceu, modernizou-se e digitalizou-se. Mas sua memória continua escrita nas letras feitas à mão que ainda resistem ao tempo. São vestígios de homens que transformaram tinta em identidade, trabalho em arte e fachadas em patrimônio afetivo.





    Foi assim que, pincelada por pincelada, os senhores dos pincéis ajudaram a escrever a alma de Anápolis.





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